Cultura Cape Malay no Bo-Kaap: comida, fé e quatro séculos de história
O equívoco e a realidade
O termo “Cape Malay” é historicamente impreciso — a comunidade que descreve não é predominantemente de origem malaia, e “Malay” era usado nos primeiros registos coloniais como designação abrangente para qualquer pessoa escravizada proveniente dos territórios orientais da VOC (as Índias Orientais Holandesas, Índia, Sri Lanka, África Oriental, Madagáscar). Com o tempo, “Cape Malay” ficou como identificador cultural e religioso no Cabo, e hoje descreve uma comunidade de várias centenas de milhar de pessoas que são muçulmanas, predominantemente de língua afrikaans, e que mantêm tradições culinárias, musicais e arquitectónicas distintas ao longo de quatro séculos.
A comunidade prefere designar-se “Cape Muslim” em contextos formais, embora “Cape Malay” continue a ser amplamente utilizado. A distinção importa sobretudo porque a indústria do turismo cultural tende a enquadrar o Bo-Kaap como “Malay” de formas que exotizam as origens da comunidade e minimizam o carácter especificamente sul-africano do que aqui foi criado.
As origens: escravatura e o mundo do Oceano Índico
A Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC) estabeleceu o assentamento do Cabo em 1652, não como colónia mas como estação de reabastecimento para a longa rota marítima às Ilhas das Especiarias. Em 1658, chegaram ao Cabo as primeiras pessoas escravizadas. Ao longo dos 150 anos seguintes, cerca de 63.000 pessoas escravizadas foram trazidas para o Cabo — de Moçambique, Madagáscar, África Ocidental, Índia (em particular Bengala e a Costa Malabar), Ceilão (Sri Lanka) e do arquipélago indonésio (Batávia, Ternate, Tidore, Macassar, Bali).
Os sobreviventes formaram a comunidade Cape Malay. A sua língua comum tornou-se o afrikaans — especificamente o dialecto hoje reconhecido como Afrikaans Cape Malay, distinto da variedade afrikaner branca dominante. A sua religião era o Islão, mantido e transmitido em condições que tornavam o culto público perigoso até ao final do século XVIII. A sua culinária absorveu elementos de todas as correntes culturais que contribuíram para a sua formação: especiarias aromáticas do arquipélago, técnicas de estufado da Índia, tradições de peixe conservado do Sudeste Asiático, e as conservas de alperce e marmelo do Cabo.
Culinária Cape Malay: o que a torna distintiva
A comida Cape Malay é a culinária urbana indígena mais desenvolvida da África do Sul e a antepassada directa do que se designa genericamente por culinária sul-africana a nível internacional. Os pratos mais representativos:
Bobotie: carne picada (originalmente carneiro, hoje frequentemente vaca) temperada com açafrão-das-índias, garam masala, folhas de caril e fruta seca, cozida no forno com uma cobertura de custarda de ovo e leite. É preparado em Cape Town, sob alguma forma, desde o século XVII, sendo a cobertura de custarda de origem holandesa ou alemã. É o prato mais próximo de um prato nacional sul-africano.
Bredies: guisados de carne e legumes cozinhados lentamente — bredie de tomate, bredie de waterblommetjie (flor de espinheiro-de-água), bredie de abóbora. O nome vem de uma palavra portuguesa via malaio. A técnica é a cozedura lenta em panela, a lume brando, desenvolvendo sabor ao longo de 2-3 horas.
Koeksisters: não confundir com o koeksister afrikaner. A versão Cape Malay é um donut torcido embebido em calda, muito temperado com cardamomo, anis, gengibre e casca de naartjie (tangerina). Vendidos nas ruas do Bo-Kaap aos domingos de manhã, feitos em grandes quantidades por membros da comunidade para angariação de fundos para mesquitas ou causas comunitárias.
Peixe em escabeche: uma tradição da Páscoa no Cabo. Peixe branco frito (geralmente rabo-amarelo) marinado num molho especiado de vinagre, cebola e caril. Melhora ao longo de 24-48 horas no frigorífico. Este prato não existe em mais nenhum lugar do mundo exactamente nesta forma.
Samoosas: a versão do Cabo é mais pequena e mais aromática do que a samosa indiana, muitas vezes recheada com batata e ervilhas temperadas ou com frango. Feitas em grandes quantidades durante o Ramadão e o Eid.
Melktert: tarte de leite — uma base de massa recheada com custarda doce de leite. Passou da tradição Cape Malay para a cultura afrikaner e sul-africana de tal forma que a maioria dos sul-africanos já não conhece as suas origens.
Aulas de culinária: onde reservar
As melhores aulas de culinária Cape Malay são ministradas em cozinhas comunitárias no Bo-Kaap ou nas suas proximidades, por residentes que aprenderam a cozinhar com as suas mães e avós. A diferença de qualidade entre estas e uma “experiência de culinária Cape Malay” num hotel de Cape Town é enorme.
Cape Malay Cooking Safari com Zainab: funciona a partir de uma cozinha doméstica no bairro de Schotsche Kloof, adjacente ao Bo-Kaap. Os grupos são pequenos (máximo 8 pessoas). O menu muda consoante a época e o que Zainab decide cozinhar nessa semana. Não é um produto estandardizado.
Bibi’s Kitchen: Rabia Abrahams (conhecida como Bibi) dá aulas em casa. Fá-lo há mais de 20 anos e ensina bobotie, bredie e melktert com contexto biográfico — quem lhe ensinou, qual era a ocasião, o que significam as especiarias.
Bo-Kaap Cooking Tour: inclui uma visita guiada pelo bairro antes da sessão de culinária, para que chegue à cozinha com contexto em vez de ir directamente ao fogão.
Para uma visita combinada de caminhada e aula de culinária:
Cape Town: Bo-Kaap walking tour and Cape Malay cooking classA Mesquita Auwal e o calendário islâmico
A Mesquita Auwal na Dorp Street (construída em 1798) é descrita em detalhe no guia da visita a pé. O que acrescenta contexto aqui é o calendário islâmico da comunidade e como molda os ritmos do Bo-Kaap.
Ramadão: o mês de jejum transforma o Bo-Kaap. O canhão do Signal Hill dispara ao pôr-do-sol para assinalar o iftar (quebrar do jejum) — uma tradição que se mantém desde 1861. As ruas após o canhão exalam perfumes de comida, enchem-se de vozes e ganham vida de uma forma que o Cape Town da época turística raramente alcança. Se a sua visita coincidir com o Ramadão, as ruas nocturnas do Bo-Kaap valem a pena ser vividas.
Eid al-Fitr: o fim do Ramadão. As orações ao ar livre no estádio de Green Point ou nas ruas do Bo-Kaap, seguidas de celebrações em família e partilha de doces, são um dos eventos comunitários mais vívidos de Cape Town.
Ano Novo do Cabo (2 de Janeiro): o Carnaval dos Menestréis (Kaapse Klopse) é o evento anual mais visível da comunidade. Grupos de milhares de intérpretes em fatos de cetim coloridos desfilam pelas ruas da cidade desde de manhã cedo, cantando música ghoema afrikaans tradicional (derivada das tradições de percussão da África Ocidental), dançando e competindo num carnaval que dura o dia inteiro. O trajecto percorre o centro da cidade e às vezes o próprio Bo-Kaap. Não é uma representação para turistas — é uma celebração comunitária que acontece desde os anos 1800, originalmente ligada ao único dia por ano em que as pessoas escravizadas tinham liberdade de circulação. Os visitantes são bem-vindos a assistir; juntar-se sem convite não é apropriado.
Música ghoema: o som do Cabo
O ghoema é a música característica da comunidade muçulmana do Cabo. O nome vem do tambor ghoema — um tambor de barril de origem africana ocidental que era usado pelas pessoas escravizadas no Cabo. A música combina esta base percussiva com canções em afrikaans (liedjies) e uma estrutura vocal de pergunta-resposta. É ouvida de forma mais dramática no Carnaval dos Menestréis, mas está também presente em casamentos comunitários, em esquinas de rua durante o Eid e no final das orações tarawih durante o Ramadão.
Vários etnomusicólogos argumentam que a música ghoema é a antepassada directa da música popular de Cape Town desde os anos 1970 até ao presente — que os politmos da tradição kwela e Cape Jazz de Cape Town remontam directamente ao tambor ghoema. A ligação não é comprovável em sentido estritamente musicológico, mas o argumento é convincente quando se ouvem ambos.
A caminhada gastronómica: um circuito matinal
Uma boa caminhada gastronómica Cape Malay no Bo-Kaap inclui:
07h30 — Signal Hill Road: assistir ao nascer do sol sobre Table Bay enquanto as orações matinais (Fajr) ecoam de vários minaretes.
08h00 — Recolher os koeksisters de domingo na Wale Street ou na Chiappini Street (disponíveis junto de padeiros comunitários a partir das 8h ao domingo).
09h00 — Malay Deli na Shafiek Street para samoosas e café.
10h00 — Visita guiada pelo bairro, Mesquita Auwal e Bo-Kaap Museum.
12h00 — Aula de culinária ou almoço num restaurante local.
Para a caminhada gastronómica pela cidade mais ampla:
Cape Town: culinary walking tour with food tastings Cape Town: essential food and drink tourPerguntas frequentes
Qual é a diferença entre a comida Cape Malay e a comida malaia?
Muito pouca, em termos de ligação directa. Ambas partilham algumas tradições de especiarias do arquipélago indonésio, mas a culinária Cape Malay desenvolveu-se independentemente no Cabo durante 350 anos, absorvendo influências holandesas, francesas, alemãs e indígenas Khoikhoi, para além da base de especiarias malaio-indiana original. A comida Cape Malay moderna assemelha-se mais à culinária sul-africana do que à culinária malaia nos seus ingredientes e técnicas principais.
Quando é o Carnaval dos Menestréis?
2 de Janeiro de cada ano. O desfile principal pelo centro da cidade decorre desde de manhã cedo até ao fim da tarde. O trajecto varia ligeiramente de ano para ano. O alojamento em Cape Town está no pico da procura no início de Janeiro; reserve com meses de antecedência se quiser estar lá especificamente para o Carnaval.
Posso participar numa aula de culinária sem fazer primeiro a visita a pé?
Sim, mas o contexto será mais escasso. Uma sessão de culinária de 2 horas em que faz bobotie e bredie é agradável por si só. As mesmas 2 horas após uma caminhada pelo Bo-Kaap com um guia da comunidade é uma experiência significativamente mais rica, porque compreende o que está a cozinhar e quem ensinou a pessoa que o está a ensinar.
As casas pintadas do Bo-Kaap são uma tradição colonial?
Não. A maioria das casas era branca até aos anos 1970-80. Os moradores pintaram-nas depois de conquistarem o direito de as possuir definitivamente, como acto de afirmação cultural. Algumas cores específicas ficaram associadas a famílias ou quarteirões específicos, e há discussões comunitárias sobre as cores adequadas — é uma tradição estética activa e viva, não uma tradição fixa.